Entre o Preconceito e a Grandeza: Xenofobia, COP30 e Mariah Carey em Belém
- Lucas Rezende
- 8 de set. de 2025
- 2 min de leitura

O Brasil insiste em virar as costas para a Amazônia. E quando olha, muitas vezes olha com desprezo: Belém é chamada de “fedorenta”. O paraense é tachado de “feio” e “pobre”. Eu sou paraense.
Xenofobia é crime e fere a dignidade da pessoa humana, fundamento central da Constituição.
Eu moro hoje em Salvador, por escolha puramente espiritual. O candomblé me ensinou que respeito não se pede, se impõe. E que quando tentam esmagar um povo, esse povo responde com fé e com força.
A xenofobia contra paraenses é tão violenta quanto o racismo: ambos buscam negar humanidade. Quem ri de nós, ri da miséria que o próprio Brasil produziu com séculos de abandono.
E não faltam exemplos desse abandono. Melgaço do Pará tem Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,418, o pior do país. Ali, a renda média mal ultrapassa cem reais mensais. Crianças sem escola, adultos analfabetos, hospitais caindo aos pedaços, famílias isoladas por rios, sem estradas. Logo na Amazônia, o bioma mais rico em biodiversidade e recursos naturais do planeta e que enfrenta as piores misérias relacionadas ao desenvolvimento humano (conforme afirma Dira Paes).
Em junho de 2025, o repórter Breendo Teixeira, de Manaus, gravou vídeos em Belém debochando da cidade e dos seus moradores. Ele chamou a capital paraense de “cidade fedorenta”, disse que Belém “cheira a paraense”, que as pessoas seriam “feias” e “pobres”.
A COP30 em Belém deveria ser orgulho nacional. O maior encontro climático do mundo, no coração da floresta. Mas parte da mídia e de figuras públicas preferiu o desprezo: chamaram Belém de “esfarrapada”, “pobre demais”, “incapaz”.
Não confundam crítica técnica com preconceito. Uma coisa é cobrar saneamento, mobilidade, estrutura. Outra, muito diferente, é negar a dignidade de um povo.
Belém já provou sua capacidade. Todos os anos, o Círio de Nazaré arrasta mais de dois milhões de fiéis às ruas. É uma das maiores manifestações religiosas do planeta, uma maré humana de fé e pertencimento que transforma a cidade inteira. Quem ousa dizer que somos pequenos diante desse espetáculo está cego pela arrogância.
E em setembro de 2025, Belém deu uma resposta que ecoou pelo planeta inteiro. Mariah Carey, uma das maiores artistas da história da música, cantará no dia 17 de setembro deste ano sobre as águas do Guamá em um palco monumental em forma de vitória-régia.
A Amazônia mostrou-se ao mundo em beleza, arte e dignidade. Não pedimos licença. Mostramos.
Se querem nos reduzir, respondemos com grandeza. A miséria de Melgaço não nos define. O preconceito da mídia não nos intimida. O deboche de um jornalista não nos diminui. A fé do Círio, a potência de Belém e o show de Mariah Carey gritam em uníssono: a Amazônia não se ajoelha diante da ignorância. O preconceito não passará.
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